Sandra Reis

Sandra Reis

Quem sou eu

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
Minha vida não é uma linha reta, é cheia de curvas. Feita de encontros e reencontros. Gosto das palavras simples e humanas. Meu coração se expressa pelas mãos. Quando amo, me entrego. Sou toda feita de eros. Tantas pessoas e, no entanto, apenas esta pessoa. Meu Deus não tem religião. Ele está presente em todos os seres humanos, em toda a natureza. E todas as feridas cicatrizadas me ajudam a compreender o eterno.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Da ausência

Não te afastes de mim, amado meu,
porque minha alma sente.
Não deixe que meu coração se feche
e se entristeça.

Não vês que estou marcada,
tatuada de tua presença,
e quando algo acontece
a bagunça se instala?

Não te ausentes de mim amado meu,
Porque meu amor é só teu
e, se o teu for errante,
também vou ficar distante.

De que é feita a minha alegria?

De que é feita a minha alegria?

Da imensa saudade,
da liberdade perdida,
da falta de sorte,
do anseio da morte.

Dos amores falidos,
do sonho não realizado,
da angústia que pulsa
no corpo cansado.

Das falsas promessas,
da febre de amor
do orgasmo fugaz,
do mistério da dor.

sábado, 29 de março de 2008

Para um avô



Quisera eu nessa vida
desvendar este mistério:
Que segredo é esse que existe
entre um avô e um neto?

São as noites divididas
por não querer dormir só.
É o tenis que não desamarra
por que foi dado um nó.

É a comida na mesa.
É o dever do colégio.
É o esconde-esconde na sala.
É o mergulho na praia.

Como explicar a esse neto
que tudo isso acabou?
Que aquele Maracanã
foi um momento que ficou?

Que ficou essa lembrança
Que ficou essa saudade
Que um dia essa criança
teve tanta felicidade!

sexta-feira, 28 de março de 2008

A menina sonhadora


Todos as manhãs, quando acorda, Juvia vai ao jardim das flores brincar com as borboletas. Lá ela levanta as mãozinhas e finge que voa. Isso a faz se sentir livre e sonhar. Não há mais nada na vida que ela goste tanto! Está na sua alma.

Desde bebezinha, ela viaja de avião com seus pais para um país chamado Brasil. Visita sua vovó e seu titio, que moram lá.

Na cidade onde vivem, o céu é tão amoroso que abraça as árvores e nelas existem pássaros de todas as espécies, como o "bem- te- vi"que gosta de

brincar de esconder com as crianças. Quando Juvia o avista, ela grita seu nome bem alto: "Bem- te- vi"! E então ele se esconde novamente.

Ela corre de um lado para outro, atrás do passarinho.

--- Juvia, cadê você?- Pergunta a vovó seguindo o som de sua risada.

O pássaro e ela podem se comunicar muito bem, pois falam a linguagem da natureza.Isso só é possivel para quem é puro de coração.

Na semana seguinte vovó levou Juvia à Fazenda. Ela andou de cavalo, deu comida para os coelhinhos e sentiu o cheiro de terra no ar.

Quando ia embora, surgiu no céu um lindo arco-íris e seus olhos se iluminaram, porque aquele era realmente um lugar encantado.

Às vezes ela fica pensativa, como se estivesse a milhões de anos- luz de distância e sua cabecinha de brilho dourado sussurra segredos que só ela conhece.

Talvez Juvia fique dividida entre a cidade onde vive e a outra em que mora sua vovó, pois o tempo não a faz esquecer que cada terra tem sua magia.

Se ela volta, é porque bate a saudade. E então o pensamento viaja....

Mais uma vez, chegou a hora da despedida. Ela não veria mais com os olhos sua vovó, seu titio e os amigos novos que conhecera, porém os veria com o coração, porque

existem coisas que são mais fortes que a distância.

Lá longe, onde ela vive, sempre pede à mamãe: "Vovó home!"

E sonha fazer uma nova viagem. Cada vez é diferente, porque ela carrega dentro de si uma pura alegria de viver.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Ser avó




Voando no céu azulado
vou encontrar minha neta.
Cruzo nuvens tontas e espertas
montada no meu cavalo alado.

Chegarei antes que ela cresça.
Levo uma pequena flor.
Me inspiro no inefável.
Meu caminho é feito de amor.

Quero viver o eterno. Agora.
Quero aparecer e ser.
Quero lhe dar meu tempo,
ajudá-la a crescer.

Vou beijar seus olhos.
vou fazê-la sorrir,
deixando raizes e asas.
Missão do meu porvir.

O meu coração de poeta
transborda de felicidade.
Ser avó é uma dádiva.
De todas, a melhor idade!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor x Amor

Que amor é esse,
que mexe com meus sentidos,
me guia e me aponta o caminho?

Será um raio de luz
ou labaredas do meu coração?

Que poder é esse,
que me faz derramar
lágrimas de gozo.

e desvenda os segredos
mais profundos
de minha alma?

Encontrei o descanso.
Tenho agora a paz
em meu interior.

Nossas almas
não necessitam
de palavras
para se entender.

Ouvem, falam e suspiram
à procura de sorrisos,
perfumes, carinhos
e danças afrodisíacas.

Até que o inverno nos leve
com seu vento manso,
e repousemos
em alguma estrela.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Saindo da contra-mão

Hoje rasguei meu peito, perdida em meio a expectativas e mágoas. Tentei arrancar de dentro algo que só agora percebi, embora já tivesse percorrido mais da metade do meu caminho.
Cuidadosamente, coloquei em ordem minha consciência
e, me equilibrando entre meu ego e minha espiritualidade,
fiz-me livre-pensadora.
Antes procurava respostas fácéis nas experiências de terceiros.
Precisei de muito tempo para constatar que eu ainda estava na contra-mão de mim mesma.
Tive dificuldade em aceitar que, para ser feliz, é preciso
saber jogar o jogo do faz- de- conta.
Cética, tropeçava em minhas convicções, atropelando
meus pensamentos.
Hoje me perco, me procuro e me reencontro novamente.
Hoje me orgulho do que conquistei: os amigos, a força para suportar o peso nos ombros e o tesouro que jaz dentro em mim, responsável pelo amor que sinto por todas as pessoas que encontro nessa estrada.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Olhos de amor

De repente comecei a prestar mais atenção no cenário que vejo de minha janela:
o pôr-do-sol me deixa ávida de encantamento.
Não que antes não visse. Mas estou olhando mais devagar agora e com mais carinho.
Também olho mais para coisas esquecidas, fotos antigas, velhas gravuras e desenhos de meus filhos.
Passei a apreciar mais o modo como falo e que até então nem havia notado: com os "s"
e "r" carregados. Um jeito carioquês, de que todo paulista gosta de tirar um sarro.
Mas eu não ligo: tenho os olhos mais delicados.
É um olhar meio vidente, que me deixa mais contente.
Eu acho é que meus olhos viraram poesia.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Presságios



Olhando teu retrato,
veio em minha memória
lembranças do passado.

Eras a própria poesia.
E, ainda menina,
quando desabrochavas
fiz uma profecia:
“ Filha, tua herança
será a poesia”.



Pude colher alguns versos
de tua emoção
e assim pressagiei
uma ilusória missão.

E insistia:
Escreve mais uma...
Então escrevias,
rimas lindas e tocantes
como há muito tempo
não se via.

Mas tinhas sonhos, anseios,
e teu coração pedia
que os poemas ficassem
distantes.
Não houve meio.

Dizias:” Mãe, quando tiver
a tua idade,
volto a escrever
poesias.”

Ledo engano,
ela nos escolhe,
e não nós a ela.

Orgulho, pretensão.
Somos o anverso,
limitação.

E minhas palavras ocas
se vestiram de magia.

Todo esse tempo
fui ingênua
em minha alegria.

Pois não via
que esta missão
não era tua,
era minha.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Diferentes mas iguais

São todos muito importantes
os dedos de minha mão.
Estão sempre contentes,
cada um com sua função.

O mindinho é o caçula,
fácil de se machucar.
Precisa tomar cuidado
cada vez que fôr brincar.

Seu vizinho é o anular,
Gosta de se enfeitar,
coloca sempre um anel,
pra com todos passear.

O maior é o mais levado,
adora chamar atenção.
Mas é sempre solidário,
tem enorme coração.

O indicador é guloso,
curioso como ele só.
Vai testando todo bolo
que faz a minha vovó.

Polegar é o mais gordinho
de todos os demais.
É o que entende mais o caminho
das linguagens dos sinais.

E assim, são meus dedinhos,
nenhum deles é igual,.
Sempre unidos, companheiros.
Eles são muito especiais.

Meus amigos

Não me chamem de poeta,
isso ainda não sei se serei.
Na minha tímida alegria,
intuo, construo, lapido.
Sinceramente, eu não me sei.

Vocês sim, sabem versejar:
dão seus melhores tons,
conjugam rimas com inspiração.
Todos são muito bons!

Cantam mágoas, alegrias,
amores e fantasias,
alguns, pornografia
com impecável despudor.

Meus amigos são poetas.
Luz própria? como não tê-las?
Quando começam a falar,
os céus derramam estrelas.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Prece ( Sandra Reis)

Hoje estou aqui para agradecer todas as bênçãos que recebi. Os amigos novos que ganhei e todos os ensinamentos que aprendi.
Me sinto mais preparada a partilhar, elevar e confortar quem necessita.
Não deixes que eu seja insensivel ao sofrimento das pessoas. Não deixes que pessoas com más vibrações se
aproximem de mim, de minha familia e de meus amigos.
Eu sei que tudo o que acontece são lições espirituais.
E que nada melhor do que o tempo para resolver.
Não existem coincidências. Estou no lugar certo, no momento certo.

Meu Deus

Te busco no silêncio de meu coração e peço perdão por
ter deixado emoções negativas tomarem conta de mim.
Encontrei a chave mágica que me abriu a porta e libertou
o meu Deus interior. E com coragem enfrento minhas sombras. Só eu posso entendê-las e me livrar delas. Só eu posso assumir o controle da minha mente se seguir em paz, vivendo com novos desafios e mantendo um
sentimento de paz e amor para com todas as coisas e todas as pessoas.

domingo, 25 de novembro de 2007

O Anjo

O Anjo



Ele chegou de mansinho

e se sentou a teu lado.

Eu não ouvi, quando veio,

nem o silêncio do passo.



Trouxe com ele uma espada

nunca antes imaginada.

E te envolveu com doçura

como uma brisa que passa.



O Anjo daquela estrada

me deixou aqui sozinha.

As lembranças afloraram

e eu chorei, meu cãozinho.



Chorei porque me deixaste,

meu pequenino amigo.

Porque fiquei na saudade

e sorrir não mais consigo.



Quando chegar minha hora

e Ele vier me buscar,

seguirei este caminho

- aquele que vais trilhar.



Ficou um rastro de luz

de tuas lindas patinhas.

Com o amor que me conduz,

te encontrarei algum dia.


( Carta para Scoob que foi para o Céu esta semana).

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Elos (Sandra Reis)

( tê-los ou não t( elos)?

Quero voltar para casa
Mas me bateu um impasse:
Não sei para onde eu vou
nem o porquê da saudade.

Me surgem vagas lembranças
de coisas que sucederam
como não sou mais criança
todas elas se perderam.

Se não me falha a memória
Sei que tenho uma familia.
Faz parte da minha história,
disso não tenho saída.

Ando comigo, sozinha.
Nem sei onde eles estão.
Não os reconheceria
no meio da multidão.

Por isso, eu sigo meu passo
e canto a minha canção:
O mundo é minha casa
e todos somos irmãos.

domingo, 18 de novembro de 2007

Minha mãe

DOCE MENINA ( JOAO JOAO e SANDRA REIS)

DOCE MENINA
CHEGA MAIS PERTO
VOU LHE CONTAR
OS MEUS SEGREDOS ...

JUVIA ROSE
VENHA DEPRESSA
QUERO BRINCAR
COM SEUS BRINQUEDOS

DOCE MENINA
NUNCA ME ESQUEÇA
VOCE NAO SAI
DA MINHA CABEÇA ...

JUVIA ROSE
NÃO VÁ SE EMBORA
VOVÓ LHE AMA
VOVÓ LHE ADORA

É PEQUENINA
TÃO POUCA IDADE
MAS TRAZ PRA MIM
FELICIDADE ....

( MUSICA FEITA PRA MINHA NETINHA JUVIA ROSE)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Volta à poesia ( Sandra Reis)

Venho do principio do amor,
porém trago em minha vida
o desencanto e a dor.

Apesar e contra tudo
eis-me novamente aqui.
Pois o amor é a semente,
a raiz, o fruto e a flor.

sábado, 6 de outubro de 2007

Encontro Marcado

Hoje estou aqui te esperando.
Me enche de abraços com os raios de sol,
acalenta meus ouvidos com tua voz,
me traz teus beijos puros,
faz bater forte meu coração.

Não importa como venhas.
Segue as pegadas do destino
e inunda minha alma com teu amor.

Hoje temos um encontro marcado,
por isso vem agora
e me deixa beijar teus olhos com ternura
e brincar como criança.

Vamos inventar a felicidade...
Apenas deixa-te levar pela magia da vida.
________________________________________

sábado, 29 de setembro de 2007

A cor do sentimento ( Sandra Reis)

Essa luz úmida da lua
se manifesta nos detalhes.
Ouço-a em silêncio.

Por vezes ela flutua,
ascende...
mas não vai a grande altura.

Algo em mim transcende
Oscila, avança,
aprofunda.

Me surpreendo
por rumos inesperados.
Recorro a meu deus particular
e construo um altar.

Essa virada lúdica
não mais controla
meus sentimentos.

Meu pensamento
Não exige
Não censura
Não julga.

Tolera, frui, permite
e entrelaça
o caminho de quem amo.

Alquimia ( Sandra Reis)

Eu tenho um santuário secreto:
Está aqui dentro de mim.
Nele existe um amor tão grande,
sei que não terá fim.

Onde estavas, meu querido?
Em que estradas caminhei?
Segura minha mão
e me leve aos céus do seu coração.

Sim, estou amando.
Mais do que sinto, ele é
Eternidade, amor sem tempo,
que deixa uma doce saudade.

Abençoe, Deus meu
essa torrente de vida
que corre pela minha veia.

Abençoe o meu amado.
Fazei com que eu
doe mais que receba,
e essa paz me conceda.

Abençoe este sentir,
abençoe até a dor,
pois o que sinto é mais que amor,
é encontro de almas perene.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Viajante ( Sandra Reis)

Viajante

O amor me chama
a mim, que esqueci
ser um raio de sol,
que esqueci
ser minha alma um poema.

Resgatei meu coração.
Que saudade sentia
desse mistério de amar.


Ele sabe da essência do meu perfume,
do brilho da minha estrela,
e me liberta de todos os tabus.

E me contempla num mar de rosas
sem espinhos.
E abre as comportas
pois sou uma gota
e o que não sei, um oceano.

Lancei-me em seus braços
Já não caminho mais,
siderada, deslizo
nos seus espaços siderais.

sábado, 22 de setembro de 2007

Sobre a vida e a morte

Eu sempre admirei pessoas que têm habilidade de responder às mesmas situações de formas diferentes.

Passei a prestar bastante atenção ao comportamento tão paradoxal delas e isso me encantou.

Se antes me incomodava, agora as respeito.

Percebi que é necessário para a sobrevivência esse tipo de comportamento: ser, ao mesmo tempo, os opostos: amigo e distante, otimista e pessimista, enfim imprevisíveis.

E, conversando com algumas delas, compreendi que o que as fazia, ter mais de uma personalidade era a necessidade de se dar bem.

No meio dos meus cinqüenta e poucos anos, percebi que não podia mais errar comigo, com meus filhos, com meu trabalho e meus amigos. A autoridade deveria vir de dentro de mim. Há muitos caminhos a seguir, quando se precisa sobreviver.

Não tenho medo da morte, não me assusta. Mas quando meu filho me questiona:

-- Quem irá me proteger, depois de sua morte?

Então, o tempo me parece curto. É um caminho de incertezas onde eu sinto que é a minha última chance de fazer algo que realmente valha a pena nesta vida.

Só há uma coisa certa: eu não sei todas as respostas. É um sentimento de impotência.

Tenho uma amiga que nunca aceitou estar morrendo de câncer e sempre me dizia:

--- Por que eu?



Conheci crianças que são portadoras do HIV e que lutam pela vida com todas as forças.

Algumas, carentes de afeição, precisam que alguém as ame incondicionalmente.

E, então, penso como meu filho tem sorte por ser saudável fisicamente.

Temos alternativas, não precisamos pensar só de uma maneira.

O modo de ver sua experiência pessoal de uma forma descontraída e ao mesmo tempo

aceitando com alegria, sabendo que é aqui que podemos resolver tudo agora e não em outra vida, nos faz acreditar que as coisas são exatamente do jeito que deveriam ser.

Mas, além de se aceitar, é preciso buscar dentro de si mesmo todas as ferramentas necessárias para continuar não agindo e pensando de uma só forma. E aí que reside o problema. Nem todos são persistentes quando precisam ser.

É isso que gostaria de passar para meu filho. A flexibilidade ao lidar com as situações.

Gostaria de citar algumas frases de Tanussi Cardoso, esse poeta visceral, que fala da vida e da morte como ninguém:

--- " Quem morre antes? o morto ou seus objetos?"



-- " Sei não, acho que só vou morrer depois de mim."



Nascemos e morremos muitas vezes na vida. Morri um pouco quando minha neta

foi embora. Mas um Deus insiste em mim.

Ainda não passei por todos os estágios da vida. Ainda não cheguei ao estado final

de " sannyasin", a fase de " quem não ama nem odeia coisa alguma".

E, não sei, sinceramente se gostaria de chegar a este estágio da vida.

Ainda quero amar muito. Apenas descobri que o que antes tanto me agradava, agora já

não significa muito. São valores que estão sendo substituídos.

E são eles o bem maior que posso deixar para meus filhos.

domingo, 16 de setembro de 2007

Brumas do passado ( Sandra Reis)


Eu tinha vinte e dois anos e logo iria fazer vinte e três. Havia chegado em Genebra há poucos dias.
A única pessoa amiga que eu poderia contar, e que falava também o português era o
Sr Candeau, na época Presidente da Organização Mundial da Saúde, pai de um amigo de minha irmã.
Ele me recebeu na própria OMS e depois me convidou para ir à sua casa.
Lá, me apresentou à sua mãe. Para mim, ao longo desses anos, ficaram registradas nossas conversas naquelas agradáveis tardes.

Na frente da casa, tinha um jardim e estávamos na
primavera. As flores perfumavam o local com seu aroma. Mme Reefls me recebeu com um sorriso, convidou-me para sentar e me ofereceu uma xícara de chá.
Em seguida perguntou se eu me sentia feliz por
estar estudando lá.
Me lembro de ter tomado a decisão de ir, porque não me sentia feliz.
E agora, eu estaria?
Até viajar, eu fazia o curso de Comunicação, na Puc de Petrópolis, e não estava empolgada.
Eu morava em Teresópolis então.
Naquele momento, em Genève, tudo me parecia perfeito. Eu via apenas a beleza nas pessoas, o bem que existia nelas.
Era como se usasse óculos cor-de-rosa.
Disse isso para a senhora, e ela me fez ver que eu deveria ter sempre este hábito,
de não prestar atenção nos problemas que existem nos outros.
Embora eu estivesse diariamente com pessoas de minha idade. Eu tinha um carinho
especial pela minha velha amiga de alma jovem.
Ela era elegante, de gestos delicados, e tinha um intenso brilho no olhar.


Comecei a fazer um curso de recepcionista.
Houve uma ocasião em que algumas de nós seríamos escolhidas para recepcionar uma feira de automóveis.
A competição era grande.
Voltei à casa de Mme Reefls para uma segunda visita. Depois de tomarmos chá,
ela apontou para o cume do Mont Blanc e disse que a maioria dos alpinistas só
visavam chegar ao topo, não dando importância ao prazer da escalada.
Então, eu compreendi e procurei relaxar, fôsse qual fosse o
resultado.
Mas eu fui chamada para recepcionar o Salão Anual de Automóveis. Vesti um uniforme
vermelho com chapeuzinho, très chic. Estava um charme!

Na semana seguinte, subi o Mont Blanc de trenzinho e desci a pé com uma amiga francesa.
Ela foi minha única amiga na época. Tinha parentes que moravam lá.
Jovens fazem loucuras. Assim, depois de algumas horas, deixou de ser prazerosa
a descida!
Estávamos exaustas. Víamos os alpinistas descendo bem rápido.
Chegamos à noitinha lá em baixo. Mortas de fome e com vontade de fazer pipi,
entramos no primeiro restaurante que vimos. E tomamos uma sopa bem quente!

A minha turma era composta praticamente de inglesas e francesas.
Havia algumas americanas em menor quantidade. Eu era a única brasileira. E a única que não falava francês fluentemente.

Elas saiam muito pra se divertir. E achavam uma raridade eu ser virgem ainda com
23 anos.
O curso tinha aulas também de etiqueta, como andar, colocar um blaiser, além das
matérias como literatura e história.

Conheci um rapaz suíço que me levava para jantar fora sempre.
Um dia, resolvi ir a Paris de trem e não o avisei. Quando voltei, recebi um bouquê de rosas vermelhas enviado por ele .
Eu morava na Cidade Universitária.
Ele queria que eu ficasse em Genebra, não voltasse para o Brasil.
Mas eu não queria ficar longe de minha família.
Quando retornei de meu passeio, havia perdido meu quarto na Universidade.
Tive que morar em um pensionato alemão. Só tinha um problema: O banheiro
ficava trancado para banhos, o que só podia ser feito uma vez por semana!
Precisei pedir à minha amiga para tomar banho na casa dos tios dela.
E assim, pegava ônibus diariamente para “ tomar meu banho”.
Um dia, torci meu pé na rua. Caí no chão de dor e ninguém me ajudou!
Eu parecia invisível. As pessoas passavam por mim direto. Fui me arrastando para pegar um táxi e fui para o hospital. Não havia fratura, mas mesmo assim engessaram
meu pé.


Estava chegando o fim de minha estadia. Meu curso havia terminado.
Fui me despedir de Mme Reelfs, que havia aquecido meus dias com tanta ternura,
e pacientemente ouvido meus desabafos.
Ficávamos horas conversando e até hoje não assimilei a sua ausência.
Ela está lá, nas brumas do meu passado, que de quando em quando eu resgato
em minhas lembranças.

Caminhei de volta para meu quarto. Precisava fazer as malas.
Pensei na sorte que tive ao conhecer pessoalmente o Mestre Espiritual Krishnamurti dando palestras na Universidade. Já havia lido muitos livros dele antes de conhecê-lo.
Nada acontece por acaso.
Pensei nas minhas dúvidas, na timidez que me impediu de fazer novas escolhas.
Pensei nas pessoas que conheci e que de alguma forma suavizaram meu caminhar.
E me senti grata por ter tido essa chance mais uma vez.

Faltavam poucas horas para meu embarque e o fecho de minha mala rembentou! Não tinha a quem recorrer. Liguei para o Sr Candeau e pedi ajuda,
Ele foi rápido até onde eu estava, e começou a jogar fora o que achava que era bagulho: rolinhos de cabelo, cremes, revistas...
No aeroporto comprou uma mala nova para mim. E antes de me dar o último abraço,
me entregou um bilhete de sua mãe, Mme Íris Reelfs, que dizia:
“ Il est plus important de cultiver sés qualités que de lutter contre sés défauts”**.
Para mim, este é um bilhete atemporal. Um bilhete com um poder alquímico,
um amuleto que emite amor e que simbolizou momentos lindos e inesquecíveis.
E agora, quando olho para este bilhete, sinto que o tempo não passou. A nossa memória conserva eternizada, pelas emoções, o amor que transmitimos e que ainda
guardamos em nossos corações.

** É mais importante cultivar suas qualidades que lutar contras seus defeitos. (tradução da frase).

domingo, 2 de setembro de 2007

Momentos ( Sandra Reis)



É assim que meu filho o chama:” Momentos”. Seu nome mesmo é Scoob, mas como
são tantos os momentos bons que ele nos proporciona, acabou ficando o apelido.
Eu costumo chamá-lo de” Menininho” . Mesmo agora estando velho.
Tive a idéia de ter um cachorro para fazer companhia a ele, pois a irmã iria morar nos USA.

Há dez anos estávamos assistindo o filme “Sonho sem fim”, e havia um cachorro de orelhas compridas que voava. Minha filha disse:” Quero um igual a este!”
E eu fui buscar um, igualzinho.
Quantos dias de alegria! Ele adora fogos de artifício. Vocês sabem
de algum cachorro que goste de fogos? Ele gosta.
Se eu pudesse penetrar no coração de um cão e sentir o que ele sente quando seu dono chega. É como se um deus chegasse perto dele. É como se ele estivesse no paraíso.
E nós aprendemos tanto com essas criaturinhas de quatro patas.
Há pessoas que os desprezam. Não sabem quantos amigos fizemos por causa dele.
Essas pessoas fecham as portas dos sentidos. Renunciam à vida.
Muitas vezes, ele mexe o rabinho enquanto dorme. O que será que ele sonha?
Talvez com anjos de rabinhos, como ele.
E agora o vento soluça na minha janela como quem implora a volta dos risos.
Abro-a e deixo ventar dentro de nossa tristeza.
Isso não estava escrito: Que o tempo carrega o que é infinito.
Então me pergunto: Em que instante a alegria morreu?
Em que hora, meu cachorrinho, o silêncio feriu teu frágil corpo. Por que já não lates
mais. Já não corres como antes, nem tens mais força para chorar de alegria quando eu
chego em casa.
Não vou esquecer tua ternura e os dias que fizeram de nossa vida um sonho.
Peço aos céus que termine este jogo e que as fadas venham te beijar enquanto dormes,para que possas descansar no colo Daquele que nunca descansa.

O Flagrante Delito -- Sandra Reis

O Flagrante Delito

Sempre tive vontade de fazer aquilo.
Todos a quem contava, diziam:
--Menina, vê lá o que vai fazer, é arriscado!
Mas meu desejo crescia. E um dia não agüentei. Me armei de coragem e entrei naquele local. Olhei pra ela fixamente e pensei comigo mesma:
“ A vida é tão curta. Por que reprimir um desejo?”
Eu não vou ser a primeira, nem a última.
Fui para um canto, onde quase ninguém poderia me ver.
Meu desejo era incontrolável! Dei uma mordida nela.
Caminhei de volta aliviada.
Percebi olhares irônicos e dissimulados. Fingi que não era comigo.
Entrei no banheiro para escovar os dentes.
Me olhei no espelho:
-- Não! Isso não podia ter acontecido.
Fui desmascarada.
Meu nariz estava sujo de marshmellow.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Busca - Sandra Reis

Busca

Já não me assusta mais o escuro da noite.
Já não tenho mais medo das incertezas .
Aprendi o itinerário.
Me preparo e espero.

A cada manhã recomeço.
Faço novas escolhas, sozinha.
Se acerto ou não,
que importa, são minhas.

Vou me enredando em fantasias,
descartando velhos sonhos.
Busco agora o impossivel
o novo, a aventura, o encontro.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Amigo ( para Reynaldo Sanchez)

Viste a noite adormecer o dia,
e agora bebes da fonte da luz eterna.

Não partiste. Transmutaste num átimo de amor,
por isso, não cabe dizer adeus.

Quando teus amigos ficarem tristes,
sentarás na menina dos olhos deles
e os guiarás como um alento.

Ainda estás aqui, nesse lugar querido.
Apenas te despiste de teu corpo,
por isso não me cabe dizer adeus.

Tua canção ainda fala ao coração,
como uma estrela fiel. Por que todos
têm sua canção.

E mesmo que haja uma multidão,
os amigos a escutam, por isso
não cabe dizer adeus....

Pois só se parte realmente
quando não se doa o coração.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Feitiço - Sandra Reis

Elas chegaram,
de repente,
como se me procurassem
há tanto tempo.

Caminharam discretas,
entre montes e horizontes,
atravessaram portais,
entre risos e líquidos.

E eu, em meio a clarões,
abri meus sentidos.
Me perdi.
E alí fiquei enfeitiçada.

Dedilharam canções.
Os desejos se misturavam
ao aroma,
devassando lugares.

Pensei que fosse um anjo
de digitais palpáveis.
Fiquei fora de mim
com elas por dentro.

Elas partiram.
Fecharam as cortinas
do meu palco,
fugiram galopantes.

Mas eu aninda sinto
o sol arder,
ainda ouço
o sino tilintar.

Sutilmente,
transpasso o cortinado,
fantasio
o que não foi em vão.

Revivo, ofegante
o que senti,
e me transporto
até onde estão
tuas mãos.

domingo, 5 de agosto de 2007

Apelo ( Sandra Reis)

Deixa eu morar em teus olhos
Imaginar desejos
e sonhos imprevisíveis.

Me mostra o caminho
e deixa eu intuir
o que não sei nem saberia.

Por que através deles
conhecerei tua origem
e o mistério que mora em ti,
poesia.

sábado, 4 de agosto de 2007

Pavaroti - Sandra Reis



Não creio que tenha existido um amor tão puro quanto aquele. Já conheci
muitos deles. Amores desinteressados, inesquecíveis. Mas igual ao
amor de Inalda e Pavaroti não existiu.
E foi em meio ao barulho dos carros e da poeira do asfalto quente
de copacabana que o pequeno aprendiz de cantor chegou para ficar.
Ele teve toda a liberdade que precisava: um quarto só pra ele.
Um dia, quando estava na janela tomando seu banho de sol, um pequeno pardal
se aproximou. Conversaram muito. Pavaroti do lado de dentro e o
pardal do lado de fora.
A coisa mais importante na vida é o processo de criação. E ouvindo o
pardal piar,
Pavaroti cantou pela primeira vez.
A melodia era tão linda, que os vizinhos vieram conhecer o
maravilhoso artista, e qual não foi a surpresa, ao se depararem com um
pequeno canário belga cantando bem encima de um banquinho.
Ah sim!, era uma linda ave! E este era o modo de declarar sua afeição
a quem tanto carinho lhe dedicava: Inalda.
Adorava o suco de agrião e de aveia que ela fazia.
As visitas de que ele mais gostava eram de crianças, especialmente bebês.
Costumava pousar na cabeça deles, com o devido consentimento.
Pavaroti ocupava um lugar especial na vida de Inalda.
Entre eles havia um amor incondicional.
Um dia, ele acordou tremendo muito. Ela o colocou perto de uma lâmpada para
que se aquecesse e deu-lhe água com açúcar. Mas ele não estava bem. Chamou
o veterinário. E fez o que pôde...
Inalda sabia que seu parceiro de estimação não era mais jovem, já
tinha dez anos.
Subitamente, Pavaroti deu um último pio e morreu.

Algumas pessoas são escolhidas para cuidar de um determinado animal,
ajudando-o na sua evolução de alma grupal à individualização.
Portanto, os laços
que temos com o reino animal são profundos. Os animais são nossos amigos
e têm muito a nos ensinar.
Pavaroti deixou uma saudade imensa.
A última vez que falei com Inalda, ela chorava e ria ao mesmo
tempo. Chorava de saudade e ria lembrando-se das peraltices que ele
aprontava . E dizia:
-- Eu deveria ter tirado uma foto aquele dia... Eu não podia imaginar
que ele fôsse morrer tão rápidamente!
Mas nós duas sabemos que ele está vivo, em cada canto daquela casa e em
nossos corações.